Poemas em nome próprio
De renomes idos
Sentimentos lidos
Declamações mudas
Janelas de perspectiva infinda
Um diário livre


sábado, 6 de outubro de 2012

a saia

deixa o vento te levar a saia, moça
não impeça o movimento natural
teu corpo perde a graça de passar suavemente
junto ao meu olhar em slow motion
my confessed emotion
em te levitar o tempo
com que ficarias pela tarde, à minha frente
sem passar assim, rapidamente
pela (minha) vida
a não revelar-te nada
só o meu segredo de te ver sorrindo, intimidada
no sublime evento
em tuas pernas desnudadas
no intervalo entre meu sentimento
e a forma descoberta
porque o teu nome
permanece inexistente
indo embora com o vento
a levar também toda vontade.

sábado, 22 de setembro de 2012

o poema


Tenho febre e vertigem 
todo corpo em movimento
mas não me preocupa a doença
sei que é só o surgimento do poema
no delírio embriagado de seu sentimento

domingo, 26 de agosto de 2012

herança esportiva


Das heranças que tive, acho que a maior de todas foi a esportiva. Poderiam me perguntar sobre aquela dos princípios, do caráter, da moral... e eu responderia que as tive também. Mas é que, no esporte, todas essas podem ser reaprendidas, amplificadas, repensadas. Um dia, eu me dirigi assim a ele: “Pai, quero te agradecer solenemente pela herança esportiva que o senhor nos deu, a mim e a meu irmão”. E ele chorou ao ouvir isso, imediatamente comovido e realizado, como homem e como pai. Sempre foi um grande atleta, em vários esportes. Conquistou mais troféus e medalhas do que eu e meu irmão juntos. Isso aconteceu há uns dois anos e volta e meia ele me recorda o dito, por querer reviver. Chorou por que sabe, melhor do que ninguém, a gratidão do reconhecimento e o significado preciso, concreto e incalculável, que o esporte proporciona a uma vida.

Há muitos tipos de alegria, e muitas delas semelhantes. Há muitos tipos de alegrias, e muitas delas inconfundíveis. A do esporte é uma destas. Experimenta-se, por exemplo, no amor, na paixão, alegrias que não podem ser comparadas – porque nós as sentimos únicas. E no esporte é também assim. Quem pratica, sabe. Quem acompanhou as olimpíadas também pôde perceber isso, nos pontos decisivos, nas vitórias apertadas ou incontestáveis. Só quem vive isso sabe a sensação e a verdade únicas, “incontidas”  em um grito espontâneo de vitória. Mas não são apenas vitórias. E o esporte pode ensinar também a perder, a lidar com as frustrações, mas persistir no aprimoramento, a conviver com a dor e a saber, pacientemente, que ela passa; ensina relutar a desistir, a enfrentar os medos, a dedicar-se. Proporciona um grande prazer ao corpo e um enorme proveito ao espírito, o de poder ensinar também a conviver consigo mesmo, a ponto de saber gozar o “estar sozinho”, nos treinos ou nas renúncias, ou a entregar-se totalmente na congregação de gentes várias, que ainda podem se tornar amigas.

Escrevo essa pequena crônica por meu pai e por dois dias seguidos. Ontem, acordei de manhã e pedalei após ter tido um início chato de manhã. Voltei revigorado, como quem reacordasse para o dia. Hoje, surfei com pessoas incríveis, que fazem do esporte um modo muito bonito e generoso de viver. 

sábado, 11 de agosto de 2012


Cassiana
                 
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.
E lá fora um grande silêncio como um Deus que dorme

                                                                 Fernando Pessoa


Cassiana acorda e sempre me faz um carinho.  
– Cassiana, me traz um café?!
É como se eu falasse. É como se o nosso silêncio trouxesse sempre as palavras. E ela percorre os poucos passos que são a nossa casa. O café estará pronto. Vejo-a séria e me chega a parecer triste. Há tanto juntos nesta vida que me sinto eterno: o dia antes do sol, o café bebido na manhã, o semblante carinhoso de Cassiana. Suas mãos me libertam, me trazem, me levantam, e me torno homem, há anos.
Cassiana acordou tossindo e me preocupa. Sou eu quem está sempre pesando, ela não. Cassiana é o rio que passa lá fora, nossa vida inteira, e nunca nos faltou peixe. Cassiana é sempre com o café quente, a me esperar. Passo o dia no rio, encosto a canoa e subo o barranco por ela, o sol se pondo lá atrás. Vejo o brilho de Cassiana me esperando, o brilho dos olhos. Os olhos de Cassiana perseguem a cor do céu. Nesta hora, ela sorri e entramos juntos em casa. O preparo do peixe espera as novas xícaras de café bebidas juntos. Cassiana ajunta as duas mãos na xícara e traz até a boca ressecada de sol. Os lábios finos, mais finos a cada inverno, de uma beleza persistente. Os movimentos sempre lentos e medidos, tudo o mais imóvel, só os lábios e as mãos na sintonia, numa certeza de quem acompanha e protege. Eu bebo o meu café e o café tem o gosto da imagem do rosto de Cassiana ao pôr-do-sol.

O pomar está melhor este ano. Choveu mais. É preciso continuar acordando Alberto sempre cedo. Sinto um cansaço nas pernas que me doem e me esticam os minutos na cama. Mexo-me devagar para que não perceba que durmo mal. Tem o sono pesado e isso ajuda. Alberto é com o ritmo dos pássaros e precisa acordar cedo, com seus cantos. É bom pra sua saúde. Suas asas precisam continuar batendo e as que voam mesmo, eu sei, o consideram parte do bando. Lá vai pro rio. As andorinhas o acompanham. Eu o amo. Amo sua sensibilidade. Amo suas mãos indecisas, a vida inteira. Suas mãos agora são indecisas e mais leves, pelos anos passados com as andorinhas. O remo vai deslizando as águas calmas, vai cochichando com o rio. Parece que o dia, nas margens, começa com Alberto. Vai acenando a elas, como um pastor que adocica o rebanho. Vai voltar depois que eu regue as frutas. Com o pomar mais forte, este ano, terei menos trabalho e os dias parecerão mais leves. Deus ajuda!

À tarde já entrada, Cassiana acende o candeeiro. É hora do repouso e do silêncio. Não se passam os sons do dia que se foi. Naquele espaço sagrado, murmuram os sons da noite enfeitiçada, do rio que transporta os dois pela vida; dos rumores poucos, do bule que toca a xícara, do líquido quente que desce recompondo os corpos, de uma vida inteira que adormece lá fora. É quando a luz do candeeiro cresce lentamente envolvendo os dois, transfigurando a noite. A luz vai abrindo o caminho das lembranças. Revela o pano que Cassiana bordara ainda criança, cobrindo a mesa. Alberto acaricia o tecido e seus olhos não se mexem, além da ilusão de movimento que causa a reflexão de luz na umidade excessiva dos olhos. A luz alcança o conjunto de xícaras esmaltadas. Alberto olha as suas mãos com claridade e vê o amor de Cassiana. A luz escolhe o drama, e tudo o mais se suplementa em vida. Alcança o cruzeiro coroando o oratório, marcado de mãos que se untaram de suor e fé; as cadeiras antigas, o ninho beija-flor por entre as telhas.

Quando Cassiana levantou-se a luz tocou seu rosto. Havia uma precisão de dia naquele rosto que Alberto sentiu calor de sol cruzando a casa. Quis acompanhá-la, indo pra janela, mas preferiu contemplar a luz tomando conta de seus cabelos, aveludando seu pescoço, seus braços morenos, a silhueta moldada pelo tempo. Cassiana era o sol surgindo pela janela e Alberto sentia o orvalho desprendendo em cheiros; ouvia os pássaros alimentando nos ninhos, peixe batendo no rio, a festa da manhã nas árvores; um clamor de terra acordada, uma imensidão na promessa da vida.
Alberto quis se dirigir até a janela. Respirou fundo, como quem começa uma manhã, ainda acariciando o pano, enquanto suas pernas frágeis erguiam o corpo que desta vez estava decidido. Neste instante, Cassiana se voltou pra ele com tamanha ternura que se não fosse a lentidão que acompanha esses pequenos gestos, a luz de seu rosto o cegaria:
– Alberto, apaga o candeeiro e vem ver da janela. Está nascendo a lua.

            

domingo, 5 de agosto de 2012

A casa

Tempo é de arrumar a casa

O primeiro passo é terminar a obra, inacabada
e a permanecer assim, sempre que pronta

Desenformar o olhar
remoldar concretamente a alma
alinhar os pensamentos móveis
varrer os sonhos esquecidos
espanar poeira de ilusões
o caos de teias imbricadas
podar os ramos e os sentimentos secos
encerar os desapegos

olhar pela janela afora e perceber
o que há dentro em mim


quarta-feira, 25 de julho de 2012

Poesia

(Carlos Drummond de Andrade)

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro 
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda a minha vida inteira.

25 de julho, dia do escritor

segunda-feira, 23 de julho de 2012

revelação


A experiência de ter habitado
e retornar a Minas, como um estrangeiro.

Percorrer todos os rostos à face
da miragem e da sensação
como se os tocasse todos
com os dedos intrigados da alma

e percebesse neles a evidência clara
reveladora e inquietante de sua história
mais do que por edifícios e cidades

e descobrisse enfim
a rugosidade morena das peles e das pedras
uma caiação generalizada da alegria

os sorrisos ornados de um cansaço anscestral
os corpos informados de ladeiras e labutas
o alvo amarelecido do olhar, ao poente ou pelo tempo mesmo
o andar perene de uma procissão sem fim, sem redenção.

E ainda assim
aquela mania antiga de erigir brinquedos confiantes aos deuses
e uma melancolia infensa a qualquer sublimidade.


praça central de Sabará, 14/07/12

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Começar a passos lentos, bem modesto
a deixar mais disponíveis uns degraus ali por perto.

domingo, 17 de junho de 2012

o cello

a corda acode
o vaivém do arco
e faz vibrar o corpo
em movimento bailo
que encolhe e se expande
ao som do acorde
em aço doce aveludado
que preenche e sai
do corpo amadeirado
instrumento-vinho
dentre todos
o acolhido mais
o degustado em si
no vão da alma
e tudo então
num todo só de dois atado
em invisível laço musical
vai produzindo intenso 
um desejo inato
pelo amor da consonância e
a quintessência soa afinação

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A máquina deste mundo


                             ...dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
                                    na estranha ordem geométrica de tudo



                                                                                 Drummond


Engrenagem rude esta do mundo que me afora
leva a alma inteira a viajar incrível

Crê-se livre e solta a trotar no espaço infindo
a despeito de errar-se tola pela máquina insensível

Galga alta o arco ilusionista
ignorando que há múltiplos ruídos

Crê-se onipresente nesse todo fantasista
mas é só poeira, nada, uma sombra invisível

Imagina que se rege pela música, pelo amor, a poesia
mas domina-a e a conduz ao fado, ante tudo

um mercúrío mineral de astros outros enredados
o senso comum mais rastro e previsível

E como eu palmilhasse a minha estrada apenas
encontrei vários desvios.


quinta-feira, 10 de maio de 2012

Ser

A mim que estou
deixar de ter
seria o mesmo que
deixar de ser
servido assim
como sonhasse
nesse nem
pensar-me ser
sem si
só sendo
um ser
seria

Sendo ela
assim
faceira
a manhã
a tarde
a noite inteira e a
suspeitar em mim
o não querer perdê-la
já me deixo ir
sem nem querer pensar
o que seria assim
de mim não
sendo seu
iria

quarta-feira, 2 de maio de 2012

espelho

O que escolhemos para ver
vai se tornando a pouco e pouco
espelho de nós mesmos

sábado, 31 de março de 2012

Mallarmè revisitado

Um hiato no tempo incessante do verso
Um espasmo emotivo dentro da palavra
Um instante poético hirto a consoantes
Uma cesura em redondeza ao vazio

Lance mero de dados
Chuva esparsa fina a tarde
Rastros na areia entre passos indecisos
Ávida poeira por cair verdades

Fragmentos de uma vida desabrida
Corporeidades museais contemporâneas
Existência terna musical e fugidia
Sentimentos prenhes de abismo

Seria Acaso Poesia

terça-feira, 27 de março de 2012

Vem

Vem
          do céu
                  do mar
                          do chão

Vem
de onde quer
que seja e
           seja forte
                   leve
                          a morte

Vem
         teus olhos
                  tuas bocas
                          tuas mãos

Quando
onde quer que tanto
         não importe
                  em parte
                          em pranto e

Onde quer
         que vá
                  que vá

deitar comigo
          no céu
                   no mar
                           no chão

sexta-feira, 23 de março de 2012


Há exatos quatro anos, tive o privilégio de participar do "I Letras em Lisboa" (encontro que reuniu poetas e estudiosos da literatura lusófona de todo o mundo) e declamar poemas de Fernando Pessoa no Teatro São Luiz, ao final da mesa dedicada ao poeta. A casa onde ele nasceu fica exatamente em frente ao teatro.

O guardador de rebanhos 

    II

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparesse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na natureza não é porque saiba o que ela é.
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

(Alberto Caeiro)


quinta-feira, 22 de março de 2012

Há certas pessoas
muitas, quão mais precioso se tornar viver
que fazem com que nós sejamos mais
nós mesmos


domingo, 18 de março de 2012

um emblema do século xx

(Drummond)


No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.
 

sexta-feira, 2 de março de 2012

nada mais



Nada há
mais infinito
e inesgotável
do que percorrer um corpo

Nada mais intenso
do que em segredo
desvelar-se noutro

Atrás daquela curva um rio
neste canto fogo

Doce desafio
apagar com chamas mais
o refulgir do cio

E tudo é só depois
incenso no altar do gozo
um suave olor de corpos-alma celebrados
a sublime solidão compartilhada
nada mais 

quinta-feira, 1 de março de 2012


Fernando Pessoa


"O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma"



quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012


Do nosso amor
daqueles dias
alta chama
repousaram cinzas
coloridas


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

ouro preto


















um castelo etéreo
imantado em brumas 
deita sobre o corpo
da mulher que habitei
noite e dia sem sentir
como hoje sei
que aqueles ventos cortados
de pedras cal e sinos
abririam todo o seu véu
uma ladeira no meu coração