Poemas em nome próprio
De renomes idos
Sentimentos lidos
Declamações mudas
Janelas de perspectiva infinda
Um diário livre


quarta-feira, 18 de agosto de 2010

declamação



O teu rosto é um poema
que um dia se lê e nunca mais se esquece.

Olhava o céu vendo o teu rosto
e sobre a imensa página azul
deslizavam olhares tão sonhados,
poemas em prosa, verso, lábios,
sonetos puríssimos,
a imagem suave e clara de tua pele,
teus cabelos dourando
como o sol de um céu pra sempre em sonho.

São em teu rosto tudo versos,
oferendas de pêssego, luz e mel.
O que serenam ardendo os teus olhos,
a sedução que amanhece em teu sorriso.

Quero declamar novamente teu rosto,
toda a vez que me inspirarem tuas rimas.
E mesmo que seja uma noite de lua e estrelas
ou o dia se apresentar coberto de nuvens,
haverá um imenso azul em tudo,
como no dia em que descobri que te queria para construir meu mundo.

Eu caminhava
e declamava o teu rosto olhando para o céu.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

instante poético

É de um só instante necessária a vida
uma só revelação

Não cessa de sentir o corpo
Não cessa de querer o peito

E o desejo é uma chuva fina de cair por dias
murmurosa e macia
uma paz de dor deleitosa
a consciência de saber-se insatisfeito sempre
e amar, ainda e sempre
o inesgotável
o impaciente

Quero o silêncio de seu colo
repleto de um carinho musical
composto sobre o intrumento de meu corpo
etéreo de degelo e fogo
de meu corpo de terra para moldar o amor
infinito, pisado, revivido,
na voracidade de uma voz que me enleve,
quase impossível de se ouvir,
em seu recato indescritível de imensidão e glória.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

a dança

(a Rogério Claudino)

Quando encolhe seu sorriso
para vitimar-nos bem de dentro.

Quando suspendemos as palavras, poucas
porque nunca delas precisamos muitas.

Nesse seu esparramar de braços,
nesse apresentar de dedos bailarinos,

não é o amigo, o companheiro,
é o artista, o adormecido artista
que nos eleva, desta vida,
ao sonho de, no silêncio, de verdade, ouvi-la.

Como a queremos ou como a sonhamos
em, por um instante,
acreditar que somos deuses.

E nos recebe, nos conduz
no transporte suave desses dedos
aonde sozinhos nunca dançaríamos.

E nos olha dedilhando, nossos olhos
marejados por seus dedos,
dedos que seduzem esse instrumento de amor, o violão
e nos o faz, na baila, amar também.

E é por esse seu amor,
por causa desse seu amor
é que sofremos dessas dores.

Ah!, essas notas que ferem!
Dores de que tanto gostamos,
dores que nos aliviam de dores
das que não gostamos de sofrer.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

o silêncio

Percebo-o ainda melhor quando o vento sussurra por entre os lábios das folhas, e aí todo ruído é só murmúrio de existência pura. Tive vontade de ouvir uma sonata de Bach, só o cello, um movimento lento. Para mim, música e silêncio são inseparáveis. O silêncio não é a ausência absoluta de sons. O silêncio é antes a ausência de todos os sons indesejados, incongruentes. Quando os elementos se harmonizam, se coadunam, se consonam, existe ainda um silêncio. Uma espécie de silêncio primordial, melodia de uma ordem natural que atrai e conforma amorosamente tudo o que existe. Meus companheiros me deixaram só, no alto da serra, e neste exato momento eu ouço o maior silêncio do mundo. A natureza inteira está agora assentada diante de mim, e não se pode ser feliz sem que se aprenda a amar o próprio silêncio. O sino da igrejinha soou lá embaixo, metálico, distante, invisível, como se um címbalo interior com ele retinisse e me fizesse vibrar por inteiro. E eu tive, talvez pela primeira vez, a sensação de que tudo o que existe e me envolve no espaço de algum modo me acaricia. Realizo a meditação de todas as coisas sumamente vivas. Como quem ouve o silêncio, vejo o vazio animado que me liga a tudo o que posso sentir; ouço o murmúrio de todas as existências tornadas simples por seu volume de presença física e desafio ao vento e às minhas vivências. Como quem renasce, ouço o silêncio de todas as minhas companhias, de todas as coisas tornadas eu na imensidão de uma sensibilidade suavemente acolhida.

Caraça. Catas Altas. 24.10.2004

Bach e o Cello
http://www.youtube.com/watch?v=RxvRKyWsmr8&feature=related

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

pra nascer o sol

Uma grande amiga vem me buscar
para juntos ver o sol nascer.

Desceremos a varanda com o céu já quase azul
ela me oferecendo as mãos e um sorriso.

Vem de longe
e caminharemos até o aconchego dizer: é bem aí.

E nos sentaremos na relva ainda molhada,
amigos de infância esperando o sol,
eu e a manhã.

circunvolução

A roda gigante roda
no relógio os ponteiros rodam
a terra inteira roda e
eu também com ela rodo
roda a vida inteira roda

roda roda roda
roda tudo sem parar

Em silêncio os astros rodam
roda tudo ao meio-dia
ao pôr-do-sol eu rodo
roda tudo ao luar

Roda moça em meus braços
deixa o sonho te levar
Copérnico também roda
conosco o mundo roda
também roda o verbo amar

Roda a música da vida
melodia pra girar
nascendo o sol eu rodo
as crianças brincam de roda
continuemos a rodar

Roda bem o coração
peão dentro do peito
amando tudo o que com ele roda
dançando com quem seja par

Leva tudo a rodar veloz
num desejo centrífugo de voar
vai meu coração em tudo que roda

roda roda roda
roda tudo sem parar

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

paradoxo essencial

O maior defeito do poeta
é ingenuamente crer que todos verão
tudo assim como ele vê.

E sua maior virtude:
incessantemente crer que tudo pode ser visto
como fosse poesia.

liberdade

Lá fora, um pardal
pássaro sem maiores exuberâncias
voa como se a liberdade lhe fosse ofertada agora.

Enquanto eu, aqui dentro
o mais pequenino dos homens,
com a mais alta das virtudes, sonho.

navegando

Sobre o leito de um livro de poemas
navegam os meus olhos.

Ora há volúpia em beijar as margens
ora a ânsia de tocar bem fundo.

Como uma jangada antiga
meus olhos vão
ora se afundando ora emergindo

nesse leito doce e inesperado
a estrutura amante vai seguindo a continuar no rio.

Vai, sem consciência do caminho,
uma vida levada pelo leito,
vai navegando...

E por entre as amarras frágeis dos meus olhos,
como que já pressentindo um destino,
sobre o ir e vir das vagas palavras,
água do mar é que vai brotando.