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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

o silêncio

Percebo-o ainda melhor quando o vento sussurra por entre os lábios das folhas, e aí todo ruído é só murmúrio de existência pura. Tive vontade de ouvir uma sonata de Bach, só o cello, um movimento lento. Para mim, música e silêncio são inseparáveis. O silêncio não é a ausência absoluta de sons. O silêncio é antes a ausência de todos os sons indesejados, incongruentes. Quando os elementos se harmonizam, se coadunam, se consonam, existe ainda um silêncio. Uma espécie de silêncio primordial, melodia de uma ordem natural que atrai e conforma amorosamente tudo o que existe. Meus companheiros me deixaram só, no alto da serra, e neste exato momento eu ouço o maior silêncio do mundo. A natureza inteira está agora assentada diante de mim, e não se pode ser feliz sem que se aprenda a amar o próprio silêncio. O sino da igrejinha soou lá embaixo, metálico, distante, invisível, como se um címbalo interior com ele retinisse e me fizesse vibrar por inteiro. E eu tive, talvez pela primeira vez, a sensação de que tudo o que existe e me envolve no espaço de algum modo me acaricia. Realizo a meditação de todas as coisas sumamente vivas. Como quem ouve o silêncio, vejo o vazio animado que me liga a tudo o que posso sentir; ouço o murmúrio de todas as existências tornadas simples por seu volume de presença física e desafio ao vento e às minhas vivências. Como quem renasce, ouço o silêncio de todas as minhas companhias, de todas as coisas tornadas eu na imensidão de uma sensibilidade suavemente acolhida.

Caraça. Catas Altas. 24.10.2004

Bach e o Cello
http://www.youtube.com/watch?v=RxvRKyWsmr8&feature=related

2 comentários:

  1. Isso me lembrou o silêncio de um barroco repentista. Tão profundo... Transbordado de sentido.

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