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domingo, 3 de maio de 2015

Mestiçagens

Regresso de uma viagem ao México com alguns livros de Octávio Paz na mala mas o livro que me acompanha pelas cabines de vôo é Doce cuentos peregrinos, de Gabriel García Marquez. Magnífico, o livro só existe porque o escritor colombiano se deu conta de sua publicação justamente numa viagem ao México, em 1974. De tantos contos e anotações originais, restaram esses doze, reunidos pela temática de serem peregrinos – escritos de viagem, sobre viagens, sobretudo na condição de se estar como um estrangeiro pela Europa. Em várias partes deles, ressalta-se sutil a comparação de nossa América Latina em vias de uma eterna construção, em contraste com a madureza polida, perfeita e envelhecida, do primeiro mundo.

La palavra mestizaje significa mesclar las lágrimas con la sangre que corre.”

São estas as palavras flagrantes de um fictício Presidente da Martinica, no conto que abre a série peregrina. Essa passagem me fez surpreender uma das teses mais importantes de um de nossos intelectuais mais originais, contemporâneo de Paz e Marquez. Distante deles, Darcy Ribeiro acreditava que a mestiçagem resultante do processo de formação do povo brasileiro seria a chama incendiadora de uma nova civilização, de um futuro ainda não experimentado pela humanidade. Darcy acreditava mesmo, de forma contagiante (e apesar da colonização), que esse povo formado por tantas matrizes admiráveis (a portuguesa, a indígena e a africana) ensinaria ao velho mundo, inclusive, uma nova forma de habitá-lo: alegre, criativa, festiva, em harmonia com a natureza.

Ainda me lembro da primeira vez que vi a imagem de Darcy Ribeiro. Era apenas um documentário, mas a sua vibração saltava o corpo fora da televisão. Naquele momento, pensei que não pudesse haver homem mais entusiasmado ao falar de seu país e de seu futuro. Foi quando eu conheci a sua tese, e cheguei a crer, acompanhando, igualmente entusiasmado, os textos seus. Passados 20 anos, e distanciado um pouco de sua leitura, acho-a de uma ingenuidade comovente, comparada ao realismo cruel da prosa poética de Gabriel e aos rumos, nada poéticos, conquanto cruéis, de nossa civilização neoliberal, aqui e alhures. Se ainda me comovo com a tese de Darcy é porque talvez eu sofra de uma maturidade ingênua, ou gostaria muito de ainda crer sem me dar conta que também desacredito.

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