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Um diário livre


sábado, 11 de agosto de 2012


Cassiana
                 
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.
E lá fora um grande silêncio como um Deus que dorme

                                                                 Fernando Pessoa


Cassiana acorda e sempre me faz um carinho.  
– Cassiana, me traz um café?!
É como se eu falasse. É como se o nosso silêncio trouxesse sempre as palavras. E ela percorre os poucos passos que são a nossa casa. O café estará pronto. Vejo-a séria e me chega a parecer triste. Há tanto juntos nesta vida que me sinto eterno: o dia antes do sol, o café bebido na manhã, o semblante carinhoso de Cassiana. Suas mãos me libertam, me trazem, me levantam, e me torno homem, há anos.
Cassiana acordou tossindo e me preocupa. Sou eu quem está sempre pesando, ela não. Cassiana é o rio que passa lá fora, nossa vida inteira, e nunca nos faltou peixe. Cassiana é sempre com o café quente, a me esperar. Passo o dia no rio, encosto a canoa e subo o barranco por ela, o sol se pondo lá atrás. Vejo o brilho de Cassiana me esperando, o brilho dos olhos. Os olhos de Cassiana perseguem a cor do céu. Nesta hora, ela sorri e entramos juntos em casa. O preparo do peixe espera as novas xícaras de café bebidas juntos. Cassiana ajunta as duas mãos na xícara e traz até a boca ressecada de sol. Os lábios finos, mais finos a cada inverno, de uma beleza persistente. Os movimentos sempre lentos e medidos, tudo o mais imóvel, só os lábios e as mãos na sintonia, numa certeza de quem acompanha e protege. Eu bebo o meu café e o café tem o gosto da imagem do rosto de Cassiana ao pôr-do-sol.

O pomar está melhor este ano. Choveu mais. É preciso continuar acordando Alberto sempre cedo. Sinto um cansaço nas pernas que me doem e me esticam os minutos na cama. Mexo-me devagar para que não perceba que durmo mal. Tem o sono pesado e isso ajuda. Alberto é com o ritmo dos pássaros e precisa acordar cedo, com seus cantos. É bom pra sua saúde. Suas asas precisam continuar batendo e as que voam mesmo, eu sei, o consideram parte do bando. Lá vai pro rio. As andorinhas o acompanham. Eu o amo. Amo sua sensibilidade. Amo suas mãos indecisas, a vida inteira. Suas mãos agora são indecisas e mais leves, pelos anos passados com as andorinhas. O remo vai deslizando as águas calmas, vai cochichando com o rio. Parece que o dia, nas margens, começa com Alberto. Vai acenando a elas, como um pastor que adocica o rebanho. Vai voltar depois que eu regue as frutas. Com o pomar mais forte, este ano, terei menos trabalho e os dias parecerão mais leves. Deus ajuda!

À tarde já entrada, Cassiana acende o candeeiro. É hora do repouso e do silêncio. Não se passam os sons do dia que se foi. Naquele espaço sagrado, murmuram os sons da noite enfeitiçada, do rio que transporta os dois pela vida; dos rumores poucos, do bule que toca a xícara, do líquido quente que desce recompondo os corpos, de uma vida inteira que adormece lá fora. É quando a luz do candeeiro cresce lentamente envolvendo os dois, transfigurando a noite. A luz vai abrindo o caminho das lembranças. Revela o pano que Cassiana bordara ainda criança, cobrindo a mesa. Alberto acaricia o tecido e seus olhos não se mexem, além da ilusão de movimento que causa a reflexão de luz na umidade excessiva dos olhos. A luz alcança o conjunto de xícaras esmaltadas. Alberto olha as suas mãos com claridade e vê o amor de Cassiana. A luz escolhe o drama, e tudo o mais se suplementa em vida. Alcança o cruzeiro coroando o oratório, marcado de mãos que se untaram de suor e fé; as cadeiras antigas, o ninho beija-flor por entre as telhas.

Quando Cassiana levantou-se a luz tocou seu rosto. Havia uma precisão de dia naquele rosto que Alberto sentiu calor de sol cruzando a casa. Quis acompanhá-la, indo pra janela, mas preferiu contemplar a luz tomando conta de seus cabelos, aveludando seu pescoço, seus braços morenos, a silhueta moldada pelo tempo. Cassiana era o sol surgindo pela janela e Alberto sentia o orvalho desprendendo em cheiros; ouvia os pássaros alimentando nos ninhos, peixe batendo no rio, a festa da manhã nas árvores; um clamor de terra acordada, uma imensidão na promessa da vida.
Alberto quis se dirigir até a janela. Respirou fundo, como quem começa uma manhã, ainda acariciando o pano, enquanto suas pernas frágeis erguiam o corpo que desta vez estava decidido. Neste instante, Cassiana se voltou pra ele com tamanha ternura que se não fosse a lentidão que acompanha esses pequenos gestos, a luz de seu rosto o cegaria:
– Alberto, apaga o candeeiro e vem ver da janela. Está nascendo a lua.

            

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